Você é excessivamente rígido consigo mesmo? Guarda, em silêncio, o desejo de que a vida faça justiça por aquilo que lhe feriram — mas, em vez de agir, apega-se ao ressentimento e o carrega como quem carrega uma pedra no bolso? Ou talvez trabalhe até a exaustão, ultrapassando os próprios limites, como se descansar fosse um luxo que você não merece?
Se algo dessas perguntas ressoou em você, convém olhar mais de perto. Esses comportamentos compõem o que a psicologia chama de traços masoquistas — e é preciso, de saída, desfazer um mal-entendido. Não falo aqui do masoquismo sexual, daquele jogo entre quem domina e quem se submete. Falo de algo mais silencioso e mais antigo: uma forma de sofrimento que a pessoa inflige a si mesma, dentro de si mesma. É o Eu ferindo o próprio Eu. Uma dor cometida em segredo, sem plateia, que se manifesta depois como angústia, ansiedade e um peso difuso que a pessoa nem sempre sabe nomear.

Quem carrega essa estrutura acredita, no fundo, que a culpa é sempre sua. Não apenas pelos problemas que a cercam, mas até por aqueles com os quais não tem a menor relação. Basta que, numa conversa, se insinue que alguém errou — e essa pessoa, num reflexo quase automático, pensa em si mesma. Ela se oferece à culpa antes mesmo de saber se é culpada. E não raro cria, sem perceber, situações em que acaba sendo inevitavelmente a responsável. É como se procurasse o próprio sofrimento e, no íntimo, o julgasse merecido — ainda que nada, absolutamente nada, o justifique.
De onde vem essa ferida
A personalidade masoquista — que alguns chamam também de personalidade autodestrutiva — costuma nascer de uma batalha antiga e desigual: a vontade da criança que começa a existir contra a vontade de pais que precisam controlar tudo. São pais que exigem obediência a cada instante e não abrem espaço para que a criança tenha opiniões, vontades, um contorno próprio. O amor, ali, vem com condições: só é amada a criança “boazinha”. Levada ao extremo, essa lógica pode chegar ao castigo, à humilhação, à ameaça velada de abandono caso a criança ouse ser ela mesma.
Crescer assim deixa marcas fundas. O filho acumula mágoas, sonha em revidar, mas não tem poder para tanto — e então a revolta desce para o subterrâneo, transformada em vingança furtiva, em passividade agressiva, em sabotagens que ele mesmo não reconhece como suas. Aquela voz intrusiva e crítica dos pais, com o tempo, muda de lugar: deixa de vir de fora e passa a morar dentro. Torna-se um Crítico Interno implacável, que faz bullying com o próprio dono. Adulto, esse antigo menino tende a se tornar excessivamente complacente, perde o contato com aquilo que nele havia de criativo e vivo, e muitas vezes escolhe trabalhos exigentes e enfadonhos — porque o prazer, para ele, sempre pareceu suspeito.
Vale lembrar que a psicanálise pensou longamente sobre isso. Wilhelm Reich descreveu o caráter masoquista como aquele que busca, na queixa e no sofrimento, um amor que não confia em receber de outro modo. Karen Horney falou da necessidade compulsiva de se apequenar. E, mais perto de nós, a compreensão do trauma de desenvolvimento mostrou como esses padrões se inscrevem cedo, antes mesmo da palavra, no corpo e na forma de se vincular. Não se trata, portanto, de um defeito de caráter, mas de uma solução que a criança encontrou para sobreviver ao amor que lhe foi ofertado com condições.
Os sinais de reconhecimento
Não é simples identificar essa estrutura, nem em nós nem nos outros, porque ela se disfarça de virtude — de dedicação, de humildade, de generosidade. Mas há traços que se repetem, e talvez você reconheça alguns deles em si mesmo, ou em alguém que ama:
- Trabalha até a exaustão, sendo cruel consigo, empurrando-se sempre para além do que aguenta.
- Sente-se humilhado por dentro — mesmo sabendo-se igual a todos — e nunca deixa que os outros percebam como de fato se sente.
- Vê-se atraído por relações que o ferem, onde continua a ser diminuído; suportar a dor calado é, para ele, a maneira secreta de preservar algum orgulho.
- Sente-se pouco amado no mundo, como se tivesse sempre de trabalhar um pouco mais para ser aceito — e nunca fosse o bastante.
- Tem um Crítico Interno que ataca tudo o que faz, empurrando-o a extremos para provar um valor que ele mesmo não sente possuir.
- Acha quase impossível dizer “não”, e então agrada, mesmo ressentido.
- Queixa-se da má sorte, mas recusa as mãos que se estendem para ajudá-lo, como se desconfiasse do próprio alívio.
- Quando está prestes a vencer, sabota-se — bloqueia-se justamente às vésperas do bom resultado.
- Prende-se ao papel de vítima e, ao mesmo tempo, teme que tudo termine em tragédia.
- Culpa-se por tudo, repetindo em silêncio: “a culpa é minha, eu mereço o castigo”.
- Sente-se aprisionado em ciclos de autodestruição, incapaz de gozar qualquer prazer sem a sombra da vergonha, e sem esperança quanto ao futuro.
No fundo dessa maneira de viver há um medo antigo e uma dependência silenciosa: a necessidade de alguém que testemunhe a própria dor. Como se a vida só fizesse sentido no papel de mártir — submeter-se, sacrificar-se, dar-se inteiro aos outros. Essa entrega renova a esperança a cada manhã, mas é uma esperança que se desfaz sempre, porque foi construída sobre a negação de si. Frida Kahlo, que conhecia o sofrimento por dentro, escreveu algo que cabe aqui: agarrar-se à própria dor é arriscar-se a apodrecer por dentro.
Caminhos de saída
Se você reconheceu algo de si nestas linhas, quero lhe dizer, antes de tudo, que reconhecer já é começar. E que há caminhos.
O primeiro deles é a psicoterapia. É no espaço terapêutico que se pode voltar à própria história e enxergar, sem pressa e sem julgamento, de onde vieram esses padrões. Ao compreender o passado, começa-se a fazer escolhas conscientes no presente, percebendo os gatilhos antes que eles governem a vida. É natural que, no início, a ansiedade apareça — depois de uma existência inteira sem correr riscos, fazer algo por si mesmo pode assustar. Mas é justamente ali, num lugar seguro onde não se é punido por dizer a verdade, que se aprende a acolher essa ansiedade em vez de fugir dela.
Há também o trabalho de enfrentar o Crítico Interno. Vale perguntar-lhe, quase como se o entrevistasse: o que você quer de mim? Quando você aparece? E, sobretudo, de quem é essa voz? Descobrir que ela não nasceu em você — que foi emprestada, herdada, imposta — é o começo de poder devolvê-la. E, junto disso, vem o gesto de assumir a própria vida: tomar as rédeas dos próprios sentimentos sem terceirizar a culpa, o que inclui reencontrar a raiva legítima diante do que doeu na infância e aprender a expressá-la de formas que construam, e não que destruam.
Por fim, há um luto a ser vivido. É preciso chorar o amor que faltou, permitir-se a tristeza pelo colo que não veio na medida necessária. Tocar as feridas da infância e deixar que cicatrizem é um trabalho doloroso, quase artesanal — mas é ele que liberta. Lamentar o passado, com apoio, é o que abre a porta para uma vida finalmente escolhida por você.
Uma palavra de despedida
Se você chegou até aqui e percebeu que sofre desse modo, talvez seja o momento de uma pergunta honesta, feita sem culpa: você está bem assim? É verdade que ajudar e se doar aquecem o coração. Mas carregar todas as culpas do mundo, sabotar a própria alegria, oferecer-se em sacrifício para que os outros sejam felizes — isso é mesmo o que você quer?
Não se trata de virar egoísta, como às vezes se diz de forma apressada. Trata-se de algo mais delicado e mais legítimo: incluir-se na conta. Reconhecer que a sua existência também importa, que o seu cansaço também merece descanso, que a sua felicidade não é um roubo cometido contra os outros. Cuidar de si não é abandonar quem se ama — é, ao contrário, ter algo inteiro para oferecer, em vez de restos.
Você não é uma pessoa ruim. Nunca foi. Quando se submete, quando dá tudo de si, quando cala a própria dor, você não está pagando dívida alguma — está apenas repetindo uma lição antiga que aprendeu quando era pequeno demais para questioná-la. Essa culpa que mora tão fundo em você não é a verdade sobre quem você é. É apenas o que lhe ensinaram a sentir.
E há tempo de desaprender. Você caminha por esta terra não para expiar, não para sofrer, mas para viver — e, entre as tristezas que a vida naturalmente traz, também para ser feliz. Que você possa, enfim, dar-se essa permissão.
Paulo Cesar Ribeiro é psicólogo clínico – psicoterapeuta -, palestrante e Mestre Maçom, dedicando-se há décadas ao estudo das interfaces entre Psicologia, Filosofia e Simbolismo Maçônico.
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