
Há mais de quarenta anos sento-me diante do medo dos outros. Aprendi a reconhecê-lo quando ele ainda não tem nome, quando chega disfarçado de pressa, de irritação, de insônia, de uma dor no peito que a pessoa insiste em chamar de cansaço. Escutei tantos corações apertados que talvez tenha demorado a perceber o aperto no meu. Agora é a minha vez. Soube que também eu tenho um coração que adoece, artérias que foram se estreitando como caminhos antigos que o tempo recobre devagar, e descobri que em breve precisarei me deitar sobre uma mesa e confiar meu peito a mãos que não são as minhas.
Houve, confesso, um instante de silêncio. Não o silêncio da paz, mas aquele outro, que se abre quando o chão range sob os pés. É um susto honesto, e não vou fingir que não existiu. Quem trabalha a vida inteira ajudando os outros a atravessar a própria sombra acaba, sem perceber, acreditando-se do lado de fora da noite. E então a noite chega, bate à porta com o nosso próprio nome, e descobrimos que nunca estivemos de fora de nada.
O que mais me surpreendeu não foi o medo. Foi a inversão. Passei a vida sendo aquele que escuta, e agora preciso aprender a ser escutado. Fui, por tanto tempo, o que segura a mão do outro quando ele treme, e agora é a minha mão que procura onde se apoiar. Há uma sabedoria antiga nisso, ainda que doa no orgulho: a de que ninguém se cura sozinho, de que existe um momento na vida de todo homem em que ele precisa voltar a ser cuidado como se cuida de uma criança — não por fraqueza, mas por verdade. Entregar-se ao cuidado alheio não é render-se; é reconhecer, enfim, que sempre fomos mais frágeis e mais amparados do que gostávamos de admitir.
À noite, nos dias que antecedem uma coisa dessas, a mente faz o que a mente sempre faz: ensaia. Antecipa cenas que ainda não aconteceram, inventa desfechos, acende e apaga esperanças. O sono se afina, fica de orelha em pé. O corpo, que durante anos foi apenas um cavalo obediente que nos carrega sem reclamar, de repente fala alto, e cada batida parece um recado. É o medo fazendo o seu trabalho, e eu aprendi a não brigar com ele. O medo não é um inimigo a ser derrotado; é um filho assustado que precisa de colo. Quando paro de combatê-lo e simplesmente o acolho, ele se aquieta, como toda criança se aquieta quando sente que alguém, enfim, ficou por perto.
Tenho pensado muito no coração nesses dias — no órgão e no símbolo, que nunca souberam viver separados. Não é por acaso que, em quase todas as línguas e tradições, foi o coração o escolhido para ser o centro do homem, a morada do que sentimos, a raiz da coragem — essa palavra que, afinal, nasce dele. Operar o coração é tocar o lugar mais antigo de nós. É preciso abrir o peito para alcançá-lo, e há nisso algo que ultrapassa a medicina e beira o sagrado: é como se toda cirurgia cardíaca fosse também uma pequena iniciação, uma travessia pelo escuro, uma descida ao centro de si de onde se espera voltar renovado. Os povos antigos sabiam que não há renascimento sem uma morte simbólica no meio do caminho. Talvez seja isso o que me espera: não um fim, mas uma passagem.
E então me lembro de algo que me devolve o chão aos pés. Não sou o primeiro a fazer essa travessia, nem serei o último. Antes de mim, milhares deitaram-se nessa mesma mesa e levantaram-se depois, voltaram para suas casas, abraçaram seus filhos, viram muitas manhãs. Há, hoje, um saber acumulado, paciente, construído por gente que dedicou a vida inteira a estudar exatamente esse medo que é o meu — mãos treinadas, olhos atentos, uma equipe inteira que me observará por dentro e por fora, no corpo e também naquilo que o corpo não diz. Saber que serei visto como gente, e não apenas como uma artéria a ser corrigida, me traz uma paz que nenhuma estatística traz sozinha. Não estou entregando meu coração ao acaso. Estou entregando-o ao cuidado, e cuidado é outra coisa.
Aprendi, com a psicologia e com a vida, que não controlamos quase nada — e que boa parte do nosso sofrimento vem justamente da teimosia em querer controlar. A respiração tem me ensinado isso melhor do que qualquer livro. Basta fechar os olhos e seguir o ar que entra e sai, sem apressá-lo, sem retê-lo, para lembrar que a vida não é uma posse, mas um empréstimo que recebemos a cada inspiração e devolvemos a cada vez que soltamos o ar. Tudo é impermanente, e é justamente a impermanência que torna cada coisa preciosa. Foi preciso meu coração falhar um pouco para que eu voltasse a escutar, com gratidão, o milagre banal de ele ter batido, sem que eu pedisse, por todos esses anos.
Escrevo isto calmo, e escrevo sobretudo para os que amo. Sei que vocês também têm medo, e que o medo de quem fica é, às vezes, mais solitário do que o de quem parte para a travessia. Quero lhes dizer que está tudo bem sentir esse aperto — não o neguem, não o escondam de mim por querer me poupar. Podemos ter medo juntos, e esperar juntos, que é uma forma de amor que não se aprende nos livros. Entrego-me a essas mãos com confiança, e peço que confiem comigo. Da minha parte, vou ao encontro dessa manhã querendo muito voltar para abraçá-los — e, se a vida me permitir, com um coração mais limpo e, talvez, um pouco mais sábio.
E escrevo, por fim, para quem não conheço e que um dia venha a receber a mesma notícia, sentado numa sala de espera com um exame na mão e o chão fugindo sob os pés. Quero que saiba que esse medo é humano, legítimo, e que não precisa enfrentá-lo fingindo-se forte. Pode tremer. Pode chorar. Pode pedir colo. Deixe-se cuidar — há mais mãos dispostas a segurar a sua do que a solidão desse momento deixa ver. A coragem não é a ausência do medo; é atravessá-lo acompanhado. E do outro lado dessa noite, quase sempre, há uma manhã esperando.
Paulo Cesar T. Ribeiro
Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes.
Psicólogo de linha humanista existencial com acentuada orientação junguiana, budista e pós-graduações em Sexualidade Humana, Autismo e Psicologia Clínica.
Orientador Parental.
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