É Fundamental Dar Um Sentido à Vida

Qual é o sentido da sua vida? Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? O que devo fazer com o tempo que me foi dado? Há perguntas que atravessam toda a história humana, e essas estão entre as mais antigas e as mais teimosas. Elas voltam, geração após geração, sussurradas nas noites de insônia, nas perdas, nos momentos em que a vida nos surpreende sem aviso. E o grande mal-estar do homem moderno talvez não seja outro senão este: perdemos, ao longo do caminho, as respostas — ou ao menos a coragem de procurá-las. O vazio que tantos sentem hoje, mesmo cercados de conforto, nasce exatamente daí, dessa pergunta que insiste em ficar sem resposta: afinal, para que estou aqui?

É por isso que muitas pessoas batem à porta de um consultório. Não por um sintoma preciso, mas porque, em algum momento, a velha questão do sentido da vida deixou de ser abstrata e passou a doer. E quando essa reflexão começa, ela traz consigo algo inevitável: o encontro com a realidade da própria vida, tal como ela é — não como sonhávamos que fosse. Nem sempre é fácil aceitar o que se descobre nesse encontro. Mas não há como escapar dele. A vida nos interroga a cada dia, e a ela devemos responder. Cada um de nós é responsável pela própria existência, e assim seguimos, respondendo com o que fazemos, com o que escolhemos, com o modo como atravessamos os dias.

Falar de sentido, mais cedo ou mais tarde, é também falar da morte. E aqui muitos se detêm, tomados por um pensamento sombrio: se tudo termina, se a morte no fim desfaz tudo, então nada teria verdadeiro valor. Confesso que não penso assim. Imagine, por um instante, que fôssemos imortais. Teríamos diante de nós o tempo infinito, e poderíamos adiar cada gesto, cada reconciliação, cada palavra de amor, para um depois que nunca chegaria a ser urgente. Nada teria peso, porque nada seria irrecuperável. É justamente porque o tempo se esgota que ele se torna precioso. A finitude não é o inimigo do sentido — é a sua própria condição. Sabemos disso quando perdemos alguém: não medimos a grandeza daquela vida pelo número de anos que durou, mas pela riqueza do que ela deixou. Uma biografia não se avalia pela quantidade de páginas, e sim pela verdade do que está escrito nelas.

Todos nós, sem exceção, perderemos pessoas que amamos. E vejo, com frequência, o quanto essas perdas nos deixam desamparados, sem saber se a vida ainda guarda algum sentido depois que uma presença tão querida se vai. É um dos momentos mais delicados de uma existência. E, no entanto, é também aí que se revela uma capacidade que talvez nem soubéssemos ter: a de continuar. Parte do sentido da vida está precisamente nisso — em atravessar por dentro a infelicidade, em não ser destruído por ela, em crescer com aquilo que nos feriu. Não se trata de fingir que a dor não existe, mas de descobrir que, mesmo através dela, ainda há vida a ser vivida.

Fica mais fácil compreender a vida como um valor quando conseguimos dar a ela um conteúdo, uma direção, uma finalidade — quando nos percebemos diante de uma missão. E não há nada que nos ajude tanto a suportar as dificuldades quanto a consciência de haver algo que só nós podemos realizar. Uma tarefa que nos torna insubstituíveis. Foi o que Viktor Frankl observou entre os que sobreviveram ao inimaginável: resistia melhor não o mais forte, mas aquele que ainda tinha algo à sua espera — um trabalho inacabado, uma pessoa amada, um sentido a cumprir. Essa missão, por mais simples que pareça, confere à vida o valor de algo único, que nunca existiu antes e jamais se repetirá.

Pense em sofrimentos que parecem insuportáveis — a fome, a humilhação, o medo, a raiva diante da injustiça. Às vezes eles se abrandam por um instante graças à lembrança de alguém amado, a um gesto de fé, a um traço inesperado de humor, ou mesmo à beleza silenciosa de uma árvore ou de um pôr do sol. Mas esses consolos passageiros só sustentam a vontade de viver quando ajudam a pessoa a enxergar um sentido maior naquilo que sofre. Na vida há dor, e sobreviver é, muitas vezes, encontrar sentido nela. Se existe um propósito na existência, ele há de existir também no sofrimento e na morte. Ninguém, porém, pode dizer a outro qual é esse propósito. Cada um precisa descobri-lo por si mesmo, e assumir a responsabilidade que a sua resposta implica. Quem consegue, continua a crescer, apesar de tudo.

O trabalho do psicoterapeuta, no fundo, é ajudar a despertar essa capacidade tão humana: a de se sentir responsável por algo diante da vida, por mais duras que sejam as circunstâncias. E parte desse trabalho consiste em voltar o olhar do paciente para o futuro — para os sentidos que ainda pode realizar — em vez de mantê-lo preso aos círculos viciosos em que o sofrimento tantas vezes nos aprisiona. Quando a pessoa deixa de girar em torno de si mesma e do próprio mal-estar, e passa a se orientar por aquilo que a vida ainda lhe pede, algo se transforma. Tornar-se consciente desse sentido é, muitas vezes, o começo da cura.

Digo mesmo que a busca de sentido é a principal força que nos move. Não o prazer, como quis Freud, nem o poder, como propôs Adler, mas essa vontade de sentido, essa necessidade profunda de que a nossa existência signifique alguma coisa. E há aqui algo quase paradoxal: uma vez que compreendemos o caráter de missão da nossa vida, ela se torna tanto mais plena de sentido quanto mais difícil for a tarefa. As dificuldades deixam de ser apenas obstáculos e passam a ser o próprio terreno onde o sentido se realiza.

Se em algum momento duvidarmos de que a vida tenha sentido — e todos duvidamos, uma vez ou outra —, vale recordar que a primeira tarefa é sempre descobrir a própria missão e avançar naquilo que a nossa vida tem de único e irrepetível. Goethe dizia algo que nunca me abandonou: “Como pode uma pessoa conhecer-se a si mesma? Nunca pela reflexão, mas pela ação. Procura cumprir o teu dever e logo saberás o que há em ti.” E o que é o nosso dever? Simplesmente aquilo que o dia de hoje nos exige.

Talvez seja essa, no fim, a descoberta mais libertadora: não somos nós que devemos perguntar o que esperamos da vida, mas compreender que é a vida que, todos os dias, nos pergunta algo. E quanto mais aprendemos a reconhecer o caráter de missão que ela carrega, mais plena de sentido ela nos parece. Não porque as dificuldades desapareçam, mas porque passamos a habitá-las com um propósito. E uma vida com propósito, ainda que breve, ainda que marcada pela dor, é uma vida que valeu inteiramente a pena ser vivida.

Paulo Cesar T. Ribeiro , Psicólogo Clínico, Orientador Parental. Palestrante, Escritor e organizador da Biblioteca da Psique.

Algumas reflexões se ampliam quando encontram outras vozes. Se este texto despertou algo em você, compartilhe sua reflexão nos comentários. Talvez sua experiência possa ajudar outro leitor a compreender melhor a própria caminhada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima