Filmes a assistir – o encontro consigo na tela
Há um tipo de solidão que não aparece nas fotografias. A casa continua de pé, a rotina segue, há um filho para buscar na escola, contas para resolver, um corpo que ainda circula pelos mesmos cômodos — às vezes o corpo de alguém com quem já não se divide mais nada além do endereço. Por fora, quase nada mudou. Por dentro, uma mulher inteira foi se tornando estrangeira de si mesma.

Converso, nestas páginas, com quem vive assim. Com a mulher que um dia depositou boa parte de quem era na estrutura de um casamento e de uma família, e que agora, com esse chão rachado, não sabe mais onde pisar. Talvez ela ainda divida o teto com um homem de quem já se separou interiormente. Talvez tenha colocado o coração em alguém que, com delicadeza ou sem ela, avisou que aquela história não vai acontecer. E talvez, no silêncio das noites, a pergunta que mais a visita não seja “será que vou encontrar alguém?”, mas uma versão mais secreta e mais dolorida: “será que ainda sou alguém que vale a pena ser encontrada?”.
É aqui que eu gostaria de propor uma inversão. Porque a tentação, quando a autoestima feminina adoece, é correr atrás de uma prova — um novo amor que confirme, de fora, que ainda somos desejáveis. Mas o amor buscado como prova costuma nos devolver à mesma dependência de onde partimos: continuamos esperando que outra pessoa nos escolha para então podermos nos valorizar. A verdadeira travessia é mais discreta e mais corajosa. Ela não começa quando encontramos alguém. Começa quando voltamos a nos encontrar.
Não se faz esse caminho só com força de vontade. Precisamos de companhia, de espelhos gentis, de histórias que nos mostrem por onde outras mulheres passaram. E o cinema, quando bem escolhido, é uma dessas companhias. Não como entretenimento para passar o tempo, mas como um modo de reconhecer, na vida de uma personagem, algo que ainda não tínhamos conseguido nomear em nós. Proponho então uma pequena sequência de filmes — não para assistir de uma vez, mas um por semana, respeitando o próprio tempo emocional. Há uma ordem nela, e a ordem importa: primeiro reconstruir a casa de dentro, depois recuperar o valor que não depende do olhar de ninguém, e só então reabrir, com lucidez, a porta para o amor.
A primeira parada é Sob o Sol da Toscana. Frances acaba de atravessar um divórcio que a deixou sem rumo, e o que ela faz não é procurar outro homem — é comprar uma casa em ruínas e começar a reformá-la, pedra por pedra, enquanto se reconstrói por dentro no mesmo ritmo. O amor até volta à sua vida, mas chega tarde, quase de lado, como consequência de uma mulher que já havia voltado a existir. É a imagem mais fiel do que proponho: antes de encontrar alguém, reencontrar um lar dentro de si. Vale deixar a pergunta descansando: se você pudesse começar a construir uma vida nova, independentemente de encontrar outra pessoa, o que gostaria que existisse nela?
Depois, Shirley Valentine. Uma dona de casa comum, de valores tradicionais, que foi se tornando invisível dentro do próprio papel até quase esquecer o som da própria voz. Numa viagem, ela não se transforma em outra mulher — ela reencontra a que sempre esteve ali, soterrada pela rotina e pela sensação de não importar. O detalhe que mais me toca é o final: o reencontro com o marido acontece nos termos dela, de uma mulher que voltou a se habitar. Para quem teme que recomeçar signifique trair a própria história, Shirley mostra que renovar-se não é romper com quem se é — é desenterrar o que foi silenciado. Em que momentos você se sentiu mais viva, mais você mesma, e o que foi, aos poucos, abafando isso?
A terceira estação troca de chave. Adoráveis Mulheres não fala de recomeço amoroso, e é exatamente por isso que entra aqui. Há, no meio da história, uma fala de Jo sobre a solidão e sobre não querer ser amada apenas por ser a escolha conveniente de alguém — e ela diz, em voz alta, aquilo que custa tanto admitir: o desejo de ser amada sem que isso apague a própria autonomia. O filme segura, ao mesmo tempo, o amor pela família e a liberdade de ser inteira, sem opor uma coisa à outra. É um alívio para quem carrega o medo de que buscar-se seja um gesto egoísta. O que, em você, tem vida própria — para além de ser mãe, ex-esposa, ou de corresponder às expectativas dos outros?
Na mesma direção, Erin Brockovich. Uma mãe sozinha, sem dinheiro, com a autoestima no chão, que se redescobre competente, inteligente e respeitada através daquilo que faz — e não através de quem a escolhe. O homem na história é figura secundária; o que a reergue é a própria capacidade. Para quem precisa voltar a se sentir capaz antes de voltar a se sentir desejável, é um lembrete poderoso de que a dignidade pode nascer de dentro, das nossas forças, e não da confirmação de outra pessoa. Onde estão, hoje, as suas forças — as coisas que você faz bem e talvez tenha deixado de reconhecer em si?
Só então, com a casa interna mais firme, vale reabrir a porta para o amor. E o filme que faz essa passagem com mais beleza é Brooklyn. Eilis constrói uma vida nova longe de casa, se apaixona, volta à terra natal, é tentada por um caminho mais fácil e por outro homem que lhe oferece o conforto do conhecido — e, no fim, escolhe. Essa é a virada que muda tudo. Durante toda a dor da separação e da rejeição, uma mulher se sente aquela que é ou não é escolhida; a cura começa quando ela se descobre, de novo, capaz de escolher. É também uma história de valores familiares fortes, em que a personagem se torna dona da própria vida sem renegar de onde veio. Se a decisão fosse inteiramente sua, sem medo e sem culpa, que vida você escolheria construir a partir de agora?
Guardo para o fim um filme mais delicado, que só recomendo quando já existe algum fio de distância do próprio enredo amoroso: O Amor Não Tira Férias. A personagem Iris sofre por um homem emocionalmente indisponível, que a mantém por perto sem nunca de fato ficar — e talvez você reconheça, nela, um pouco da sua própria insistência. Cedo demais, esse espelho apenas confirma o apego. Na hora certa, ele liberta, porque permite olhar de fora para a armadilha de amar quem não se oferece. A pergunta, aqui, precisa ser feita com coragem: você está apaixonada pela pessoa que ele realmente é e pelo que de fato oferece, ou pela história que gostaria tanto que acontecesse?
Talvez você já tenha visto alguns desses filmes, e é natural que sim. Por isso deixo a prateleira um pouco mais larga, com outras histórias que tocam o mesmo nervo e que você pode encaixar no percurso conforme o seu momento. À Procura do Amor acompanha Eva, mulher divorciada e mãe, que volta a se envolver e precisa lidar com as próprias inseguranças diante de alguém novo — e que mostra, com rara honestidade, que os bons relacionamentos não acontecem entre pessoas perfeitas, mas entre adultos capazes de reconhecer seus limites e, ainda assim, construir intimidade. É um bom espelho para quem teme já não ter idade ou disposição para recomeçar. Alguém Tem Que Ceder vai por um caminho mais leve, de bom humor: uma mulher madura, inteligente e independente que redescobre que a feminilidade, o charme e o desejo de agradar não desaparecem com os anos, com uma separação ou com uma rejeição. Vale assistir quando a autoestima já estiver um pouco mais firme, para que a leveza seja convite e não cobrança.
Guardo Comer, Rezar, Amar com uma ressalva afetuosa. É um belo filme sobre reencontrar a própria identidade depois do casamento, mas a viagem ao redor do mundo pode soar, para quem tem valores mais recatados, como se fosse preciso se desgarrar de tudo para ter direito a recomeçar — e esse não é o convite. Se for assisti-lo, assista-o pela chave simbólica: a verdadeira viagem não é de avião, é a de sair de uma condição existencial que já não corresponde a quem você deseja ser. Nesse sentido, ele pergunta algo precioso: quem é você quando não está tentando resolver os problemas dos outros, proteger o filho ou corresponder às expectativas alheias? E deixo, por último, um filme mais áspero, para um momento mais adiantado da travessia: Livre. Uma mulher atravessa o luto caminhando sozinha, sem nenhum homem no horizonte, e o recomeço nasce inteiramente dentro dela. É forte, por vezes cru, e por isso só o recomendo quando já houver firmeza emocional — como uma medicina mais amarga, dessas que só se toma quando o corpo já aguenta.
Repare que, em nenhum desses filmes, a renovação exige virar outra mulher. Nenhum pede que você abandone seus valores, sua fé, seu jeito mais recatado de estar no mundo, para ter direito a recomeçar. Essa é uma distinção importante, porque muitas histórias de “liberação” vendem a ideia de que é preciso se soltar de tudo o que se era para voltar a ser feliz — e, para quem tem raízes conservadoras, isso soa menos como convite e mais como uma exigência de se trair. A travessia que proponho é outra. É a de continuar sendo você, e justamente por isso voltar a se reconhecer.
Há ainda uma dimensão que nenhuma tela resolve, e que precisa caminhar ao lado: a vida concreta. Se há uma criança, a reorganização afetiva de uma mãe não acontece no vácuo — ela precisa andar de mãos dadas com a construção de uma rotina previsível e segura, para que o filho sinta chão enquanto a mãe refaz o dela. E se o antigo companheiro ainda divide a casa, por razões práticas ou financeiras que são absolutamente legítimas, vale ao menos olhar com honestidade para o que essa convivência faz com a sensação de que o casamento, de fato, terminou. É difícil sepultar uma história quando o corpo dela continua passando pelo corredor todas as manhãs. Não se trata de fugir às pressas, e sim de criar, aos poucos, pequenos limites que devolvam à mulher a experiência íntima de que aquele capítulo se encerrou.
Se você chegou até aqui, talvez carregue a ferida de um casamento que deixou de ser o que prometia, de uma segurança que se abalou, da tristeza de gostar de alguém que não quer construir nada. São dores reais, e não vou pedir que as ignore. Peço apenas que, ao lado delas, você comece a olhar para outra coisa: a mulher que você continua sendo. Inteligente, com história, com charme, com um filho, com muitas possibilidades ainda pela frente.
O amor pode voltar a acontecer. Provavelmente vai. Mas que ele chegue a uma mulher que já se reencontrou — e não a uma mulher que ainda espera ser encontrada para só então acreditar que vale. Porque a vida nova, essa que você tanto deseja, não começa quando aparece outra pessoa. Começa, muito antes, no dia em que você volta a aparecer para si mesma.
Paulo Cesar T. Ribeiro
Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes
Psicólogo de linha humanista existencial com acentuada orientação junguiana, budista e pós-graduações em Sexualidade Humana, Autismo e Psicologia Clínica.
Orientador Parental.
Associado à ABRAP – Associação Brasileira de Psicoterapia
Palestrante sobre temas ligados ao comportamento humano no ambiente social e empresarial.
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