O silêncio dos sábios – Etarismo e reverência na Maçonaria
Tempora mutantur et nos in illis. Os tempos mudam, e nós mudamos com eles. É deste axioma antigo que parto, porque há reflexões que só amadurecem quando o homem já viveu o bastante para reconhecer, no espelho da Ordem, aquilo que a sociedade insiste em recusar aos seus mais velhos.
Há, no cerne da Maçonaria, um convite ao autoconhecimento e ao aprimoramento moral — um trabalho interior que deveria, por sua própria natureza, dissolver as barreiras que o preconceito ergue entre os homens. E, no entanto, é preciso coragem para admitir que nem sempre é isto o que se vê. A casa que se proclama Templo da Igualdade não está imune às sombras que projetam-se sobre o mundo profano. Ela é, como escrevi em outra parte, um microcosmos da sociedade humana: repercute, em suas paredes, os mesmos fenômenos que atravessam o tecido social mais amplo. E entre esses fenômenos há um que se instalou entre nós de maneira particularmente silenciosa — o etarismo, a discriminação por idade, a velhofobia que exclui, sem alarde, justamente aqueles que mais deram à Ordem.
Escrevo estas linhas como quem oferece uma modesta adição ao esforço de trazer à luz uma reflexão que reputo essencial e urgente. Não movido pela denúncia fácil, nem pelo tom militante que tanto empobrece o debate, mas pelo desejo de instigar meus irmãos a envolverem-se na pavimentação de um caminho — o da inclusão de todos os que aqui chegam ou aqui permanecem, em qualquer estação da vida, buscando conhecimento e dignidade.

Os Pedreiros Livres formam uma das mais antigas instituições do mundo, fundamentada nos valores de fraternidade, liberdade e igualdade. Filosófica e progressista, incita ao autoconhecimento e à prática do altruísmo, guiada pela tolerância e pela justiça. Ora, numa sociedade em que as divisões se mostram cada vez mais prevalentes, o combate ao preconceito assume urgência global. A perpetuação de estigmas restringe o próprio potencial humano e acarreta consequências que ultrapassam em muito o âmbito de nossas Oficinas. Como defensores da verdade e da moralidade, nós, maçons, temos a responsabilidade de liderar pelo exemplo. Não se trata de uma cortesia — trata-se de uma obrigação ética.
Convém, porém, olhar de frente para as raízes históricas. Durante muito tempo, os Antigos e Aceitos foram alvo da desconfiança do mundo profano; à medida que crescia seu impacto social e político, multiplicavam-se as teorias conspiratórias e as inverdades que distorciam a percepção pública. O que talvez incomode mais é reconhecer que certos preconceitos foram nutridos também dentro de casa — por membros que, sem o perceber, perpetuavam estereótipos que corroíam as próprias normas que juraram guardar. A verdade histórica é que a Maçonaria nunca esteve inteiramente imune ao preconceito: houve tempos em que limitações severas, fundadas em religião, raça e gênero, chegaram a ser institucionalizadas, refletindo as normas sociais de sua época. Hoje o preconceito veste roupagens mais discretas. Mas discrição não é ausência. É aqui que desejo demorar-me, porque é aqui que a reflexão se torna, para mim, mais dolorosa e mais necessária.
O silêncio dos sábios
Há uma forma de discriminação que raramente é nomeada entre nós, precisamente porque se disfarça de reverência. Prestamos homenagens aos veneráveis irmãos, celebramos as bodas maçônicas, evocamos com emoção os nomes dos que nos precederam — e, no mesmo instante, sem contradição aparente, deixamos de convidá-los para as decisões, retiramo-los dos papéis ativos, tratamo-los como relíquias a serem admiradas de longe, jamais como vozes a serem ouvidas de perto. A esse respeito, escrevi no livro que dá origem a estas reflexões: os maçons antigos frequentemente encontram barreiras invisíveis que os excluem de papéis ativos e tomadores de decisão dentro das Oficinas. Barreiras invisíveis — eis a expressão exata. Ninguém as ergue declaradamente. Ninguém precisa. Elas operam no não-dito, no convite que não se faz, na deliberação da qual o irmão provecto vai sendo, aos poucos, poupado até restar apenas o silêncio.
Num ambiente que respira, ainda que involuntariamente, as tendências do mundo — onde a juventude se associa ao vigor e à inovação, e a idade avançada, à obsolescência —, subestima-se aquilo que os mais velhos oferecem: sabedoria, experiência, equilíbrio na hora de decidir. Exalta-se a modernização, a tecnologia, a renovação constante; e, sob o pretexto legítimo de renovar, exclui-se. Vista sob a perspectiva de um psicólogo — e é como psicólogo, tanto quanto como maçom, que escrevo —, essa dinâmica revela algo mais fundo do que um simples desapreço geracional: revela uma resistência à mudança que se projeta, paradoxalmente, sobre os que menos mudaram de compromisso. Tememos envelhecer, e por isso afastamos de nossa vista aqueles que nos anunciam que envelheceremos. Memento mori. Há, no etarismo, uma recusa mal resolvida da própria finitude.
A pedra angular renegada
Na simbólica de nossa Arte, a pedra rejeitada pelos construtores é justamente aquela que se torna a pedra angular. Que ironia amarga, então, que a Ordem cuja linguagem inteira se organiza em torno da pedra que edifica seja capaz de renegar suas próprias pedras angulares — os irmãos cujas décadas de vivência sustentam, ainda que invisivelmente, tudo o que somos. A marginalização do maçom idoso não fere apenas o indivíduo. Ela empobrece o conjunto. Sobre isto, permito-me insistir com as palavras que já registrei: o esquecimento gradual e alarmante das valiosas contribuições dos maçons mais experientes, cujas vivências e conhecimentos profundos constituem ativos inestimáveis que engrandecem o patrimônio cultural e educacional da nossa Venerável Confraria.
Quando afastamos o obreiro veterano, não perdemos apenas uma presença afetuosa nas colunas. Perdemos um acervo. A transmissão dos valores essenciais, que se faz de geração a geração, sofre uma interrupção que a organização dificilmente percebe no momento em que ocorre — e amargamente lamenta depois, quando o vazio já se instalou. Esse esvaziamento do saber não compromete só a continuidade histórica; limita nossa própria capacidade de inovar, porque a inovação verdadeira nasce do diálogo entre a experiência e o frescor, não da amputação de uma das partes. E há ainda o custo humano, que como clínico não posso deixar de sublinhar: a marginalização produz isolamento e perda do senso de propósito, ferindo o bem-estar mental e emocional de homens que dedicaram a vida à Ordem e que, na estação em que mais precisariam do pertencimento, encontram a porta encostada.
O templo da igualdade
A igualdade maçônica não é um estado que se herda; é um ato que se pratica. E a tolerância — convém dizê-lo com clareza — não é passividade, mas um exercício consciente, deliberado e responsável. Quando a Irmandade acolhe genuinamente a diversidade etária, ela se torna aquilo que sempre prometeu ser: um microcosmo ideal, um antídoto ao sectarismo que grassa lá fora. Quando não o faz, desonra o próprio moral e fragiliza a eficácia de suas ações conjuntas em prol do bem maior. Não há meio-termo confortável aqui.
Por isso, o que proponho não é um lamento, mas um trabalho — e um trabalho tem instrumentos. O primeiro é a autoavaliação sincera: que cada irmão examine, na intimidade de sua consciência, os próprios preconceitos, inclusive os que não sabe que carrega, pois são justamente esses os mais operantes. O segundo é a educação continuada: workshops, palestras e materiais de formação que desconstruam os estereótipos ligados ao envelhecimento e restituam à experiência dos veteranos o seu justo valor. O terceiro, e a este atribuo especial esperança, é a mentoria — a criação deliberada de espaços em que o saber acumulado dos mais antigos encontre a energia dos mais jovens, não em competição, mas em intercâmbio. É na mentoria que a pedra angular volta a ocupar seu lugar na construção, e a Loja readquire a plenitude de suas gerações.
Elevemos, pois, o padrão moral e ético que a Maçonaria representa para a humanidade. A transformação que peço não contraria a tradição — ao contrário, honra-a em seu sentido mais profundo, pois reverenciar o passado e construir o futuro não são movimentos opostos, mas o mesmo gesto realizado com maturidade.
Dictum et factum. Dito e feito: que estas palavras não se esgotem na leitura, mas se convertam em ações concretas, em cada Oficina, em cada coração que as acolher.
Sobre o livro que origina estas reflexões
Estas páginas são um desdobramento de Maçonaria, Tradição e Etarismo — Reverenciando o Passado, Construindo o Futuro (Biblioteca da Psique / Novo Milênio, 2025), onde desenvolvo o tema com o vagar que um artigo não permite. Vale, para o leitor deste texto, uma palavra sobre a obra. – Acesse www.bibliotecadapsique.com.
O livro tem uma virtude que reputo rara no gênero: ele não trata o etarismo como uma pauta importada do vocabulário contemporâneo e sobreposta artificialmente à Maçonaria, mas o lê a partir de dentro, na chave simbólica que é própria da Arte Real. A imagem da pedra angular renegada, o silêncio dos sábios, o templo da igualdade — os títulos dos capítulos já anunciam que se trata de pensar o problema com os instrumentos da própria Ordem, e não contra ela. Há, além disso, um enraizamento afetivo e histórico que dá densidade ao argumento: a obra abre-se com a citação da centenária Loja Quintino Bocaiuva nº 10, GLESP e com o belíssimo estudo historiográfico do saudoso irmão Ricardo Mário Gonçalves, de modo que a defesa dos mais velhos não é abstrata — ela brota da gratidão concreta a irmãos reais, nomeados, cujas falas, como registro na dedicatória, abriram-me as portas do entendimento sobre a verdadeira essência da Maçonaria.
O diferencial da obra, a meu ver, está no cruzamento de olhares. Escrevo como maçom que percorreu os cargos da Ordem, do Guarda do Templo, Secretário, Hospitaleiro e outros a Delegado Distrital, mas também como psicólogo de linha humanista-existencial, junguiana e budista. É esse segundo olhar que permite ao livro ir além da constatação sociológica e nomear o que se passa na alma do fenômeno: o etarismo como resistência à mudança, como recusa da finitude, como conflito interno projetado sobre o outro. E é também esse olhar clínico que sustenta o capítulo dedicado a envelhecer com saúde mental, no qual proponho a própria vida de Loja como suporte psicológico e existencial contra o isolamento da velhice — tese que, num tempo de solidão epidêmica entre os idosos, ganha alcance que ultrapassa os muros do Templo.
Se há um reparo fraterno que faço à obra, e que ofereço menos como crítica do que como convite ao debate, é que sua força propositiva pede continuidade: as sugestões de mentoria e educação intergeracional, tão acertadas em princípio, merecem, num próximo trabalho, o aprofundamento de modelos concretos de implementação nas Grandes Lojas e Orientes. Mas talvez seja justo que um livro que pede a continuidade entre as gerações deixe, ele próprio, a obra aberta para que outras mãos a continuem. Como escreveu o irmão Ricardo Gonçalves, em passagem que o livro acolhe: foi dado um primeiro passo; caberá a outros palmilhar o caminho.
Fica, portanto, o convite — à leitura e, sobretudo, ao trabalho que dela deve nascer.
Ir.’. Paulo Cesar T. Ribeiro
Celular / Whatsapp: 11 98199-5612
Psicólogo clínico, palestrante, autor e organizador da Biblioteca da Psique – www.bibliotecadapsique.com.
Mestre Maçom Gr.’. 33, Ex Venerável Mestre e Ex Delegado Distrital.
Dedica-se há décadas ao estudo das interfaces entre a Psicologia, a Filosofia e o Simbolismo Maçônico. Como parte de seu trabalho de difusão dessas ideias, oferece palestras gratuitas em Lojas Maçônicas, levando aos IIr.’. reflexões que aproximam a vivência iniciática do autoconhecimento psicológico.
Algumas reflexões se ampliam quando encontram outras vozes. Se este texto despertou algo em você, compartilhe sua reflexão nos comentários. Talvez sua experiência possa ajudar outro leitor a compreender melhor a própria caminhada.