A função oculta do Salmo 133 e o trabalho permanente da união
Há uma pergunta que raramente fazemos diante de um texto sagrado, talvez por delicadeza, talvez por hábito: para que ele foi escrito? Não o que ele diz, mas o que ele pretende fazer com quem o lê. Todo texto tem uma intenção, um gesto secreto que o move, e os mais antigos, aqueles que atravessaram milênios sem envelhecer, costumam esconder essa intenção sob uma aparência de simplicidade. O Salmo 133 é assim. Três versículos apenas, tão límpidos que quase escorrem pelos dedos antes que possamos apreendê-los. E é justamente por essa transparência enganosa que passamos a vida recitando-o sem nos perguntarmos qual era, afinal, o propósito de Davi ao compô-lo.

Costumamos ler o Salmo como um elogio. Davi teria olhado para a convivência fraterna, achado-a bela, e a celebrado com duas imagens de rara ternura: o óleo que desce pela barba de Aarão e o orvalho que repousa sobre o Hermon. Um louvor à harmonia, portanto. Uma fotografia da união. Mas essa leitura, por mais consoladora que seja, esconde de nós aquilo que talvez seja o mais importante. Porque Davi não escrevia de dentro da harmonia. Ele escrevia de dentro do conflito. O Israel de seu tempo não era um povo unido a contemplar sua própria concórdia; era um mosaico de tribos desconfiadas, memórias divergentes, rivalidades antigas. A união não era o ponto de partida de Davi. Era o seu problema.
E aqui começa a mudar tudo. Um homem que celebra aquilo que já possui escreve de um jeito. Um homem que anseia por aquilo que lhe falta escreve de outro. O Salmo 133 não é a descrição de um estado alcançado; é a afirmação teimosa de uma possibilidade improvável. Davi não descreve a união porque a via diante de si. Ele a nomeia porque precisava vê-la existir. O texto não fotografa uma realidade; ele convoca uma. É menos um louvor e mais um chamado, menos uma celebração e mais uma instrução dirigida a homens que ainda não sabiam viver como irmãos.
Uma prescrição disfarçada de louvor
Proponho, então, uma leitura que o próprio texto parece pedir quando o escutamos com atenção. O Salmo 133 é uma prescrição vestida de louvor. Davi faz o que todo bom psicoterapeuta, todo bom educador e todo bom iniciador aprendem a fazer com o tempo: ele não ordena, ele mostra. Não diz aos homens de Israel façam-se irmãos, porque sabe que uma ordem dessas seria inútil, talvez até contraproducente. Diz, em vez disso, vejam como é bom e suave. Coloca diante deles a imagem daquilo que poderiam se tornar, e confia que a beleza da imagem faça o trabalho que a ordem jamais faria. A união, ele intuía, não se impõe de fora. Ela precisa ser desejada de dentro. E ninguém deseja aquilo que lhe é imposto; deseja-se aquilo que se entrevê como possível e belo.
É por isso que Davi escolhe imagens que descem. O óleo não é esfregado à força sobre Aarão; ele desce, penetra, vence as resistências sem violentá-las. O orvalho não é despejado como chuva; ele se deposita em silêncio, quase invisível, ali onde a vida corria o risco de secar. Ambas as imagens carregam a mesma sabedoria oculta: aquilo que verdadeiramente une não vem de baixo, do esforço bruto da vontade que tenta costurar tudo à força. Vem de cima, de um movimento mais fino, que só acontece quando as arestas internas foram polidas e o ego consentiu em baixar o tom. O óleo transforma; o orvalho nutre. E nenhum dos dois faz barulho. Davi está nos dizendo, sob a poesia, algo severo: a união não é um sentimento que se tem, mas um trabalho que se faz — e um trabalho tão delicado que precisa ser quase silencioso para acontecer.
A união e a lei do desgaste
Mas há ainda uma segunda função no Salmo, e é a que menos costuma ser percebida. Se Davi precisou escrever sobre a união, é porque a união se perde. Ninguém compõe um cântico para lembrar o que não corre risco de ser esquecido. O próprio gesto de escrever o Salmo confessa uma verdade incômoda: aquilo que ele descreve é frágil, transitório, sujeito a se desfazer. E aqui gostaria de propor uma imagem que talvez ajude o Irmão a compreender por que a fraternidade exige de nós um esforço que jamais termina.
Toda obra viva está sujeita ao desgaste. Uma casa habitada acumula pó, as juntas cedem, a madeira racha com as estações. Não porque alguém a maltrate, mas simplesmente porque existe no tempo, e tudo o que existe no tempo tende a se dispersar. A física chamaria isso de entropia; a vida cotidiana chama de descuido. A união fraterna obedece à mesma lei. Ela não se rompe de uma vez, por um golpe dramático. Ela se desgasta aos poucos, no atrito miúdo dos dias: uma palavra atravessada que não foi reparada, um reconhecimento que se deixou de dar, uma escuta que se tornou pressa, uma vaidade que se deixou crescer sem vigilância. A união não morre de grandes traições. Morre de pequenos abandonos. E é precisamente por isso que ela não pode ser conquistada de uma vez por todas. O que se conquista, guarda-se. O que é vivo, mantém-se.
Esta é, a meu ver, a função mais profunda do Salmo 133: não descrever a união, mas nos advertir de que ela é uma obra de manutenção permanente. Aquele óleo precisa descer de novo. Aquele orvalho precisa repousar de novo, a cada amanhecer, porque o do dia anterior já evaporou. A fraternidade não é um monumento que se ergue e se contempla; é um jardim que se rega. Interrompa-se a rega por tempo suficiente, e nem a lembrança de quão verde ele já foi impedirá que seque. O maçom que compreende isso deixa de esperar que a harmonia da Loja se sustente sozinha, por inércia ou boa vontade, e assume que ela é fruto de um cuidado que ninguém pode terceirizar.
O que se refaz todos os dias
Se a união se desgasta no atrito miúdo, é também no gesto miúdo que ela se refaz. Não há aqui grandeza espetacular. A manutenção da fraternidade se faz das mesmas coisas pequenas que a corroem quando ausentes: ouvir antes de responder, interpretar o Irmão com benevolência em vez de suspeita, reconhecer um mérito que não nos custaria nada reconhecer, admitir um engano, reparar depressa uma aspereza antes que ela endureça e vire ressentimento. São gestos tão modestos que quase têm vergonha de si mesmos. E, no entanto, é deles, e não dos discursos eloquentes nas sessões solenes, que a união se alimenta dia após dia. O óleo do Salmo desce nesses pequenos atos. Sem eles, o Templo pode continuar de pé, os rituais podem prosseguir impecáveis, e ainda assim a fraternidade terá secado por dentro sem que ninguém percebesse o momento exato em que isso aconteceu.
Convém dizer, para encerrar sem falsear, que essa manutenção não elimina o conflito — nem deveria. Seria um erro imaginar que a Loja bem cuidada é aquela onde nunca há tensão. O atrito é inevitável sempre que sujeitos reais se encontram, e tentar suprimi-lo não produz paz, apenas superfície: silêncios defensivos, cordialidades vazias, afastamentos elegantes que escondem mágoas não ditas. A verdadeira fraternidade não é a que evita o conflito, mas a que consegue atravessá-lo sem destruir o vínculo. O conflito, quando há maturidade para sustentá-lo, é o próprio cinzel que lapida a Pedra: ele toca exatamente a aresta que ainda não quisemos trabalhar. O problema nunca é o golpe. É a ausência de óleo — a falta daquela maturidade interior que impede que o choque se converta em ferida. Manter a união, portanto, não é evitar o atrito, mas garantir que o óleo esteja sempre circulando quando ele chega.
Talvez seja este o convite que Davi nos deixou, cifrado em três versículos que parecem apenas belos. Ele não nos entregou um retrato da união para admirarmos de longe. Entregou-nos uma tarefa disfarçada de louvor, e a advertência silenciosa de que essa tarefa não tem fim. A fraternidade não é o ponto de partida da vida maçônica, nem o seu troféu final. É a obra que recomeçamos toda vez que cruzamos a soleira do Templo — sabendo que o orvalho de ontem já evaporou, e que cabe a nós, mais uma vez, criar as condições para que ele torne a repousar. O Salmo não pede que a compreendamos. Pede que a sustentemos. E a iniciação, no fundo, começa exatamente aí: não quando entendemos algo novo, mas quando passamos a manter, todos os dias, aquilo que já compreendemos.
Este artigo desenvolve, por um ângulo próprio, temas do livro Salmo 133 na Maçonaria — União, Ego e Fraternidade: uma leitura psicológica e simbólica para o mundo contemporâneo, do Ir.’. Paulo Cesar T. Ribeiro, que examina como a verdadeira união fraterna depende do amadurecimento do ego e da construção consciente das relações humanas. Esta e as demais obras do autor estão reunidas na Biblioteca da Psique, disponíveis em bibliotecadapsique.com.
Sobre o autor
Paulo Cesar T. Ribeiro é psicólogo clínico, escritor, palestrante e Mestre Maçom membro da ABLS Quintino Bocaiuva nº 10, jurisdicionada à GLESP, S. Paulo – Ex Venerável Mestre e Ex Delegado Distrital. Dedica-se há décadas ao estudo das interfaces entre a Psicologia, a Filosofia e o Simbolismo Maçônico. Como parte de seu trabalho de difusão dessas ideias, oferece palestras gratuitas em Lojas Maçônicas, levando aos Obreiros reflexões que aproximam a vivência iniciática do autoconhecimento psicológico.
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