
É domingo à noite. A casa tem aquela quietude que chega depois que o dia já disse quase tudo, e o que sobra é um rumor baixo, parecido com o do mar quando recua da areia e deixa a espuma escrevendo e apagando o que foi. Parece que atravessei mais um susto do coração. Escrevo “parece” porque, a esta altura, aprendi a respeitar o que não posso garantir. Há um alívio, uma respiração mais solta, a maré que baixa e devolve o chão aos pés. E isso, hoje, me basta.
Minha esposa está bem. Os filhos e os netos também. Minha irmã está feliz, e a felicidade dela aquece um lugar antigo em mim, desses que existem desde antes de sabermos nomear o amor. As sobrinhas seguem suas vidinhas. Penso em cada um e percebo quanta da minha paz depende dessa notícia tão simples: os meus estão bem. Não preciso tê-los todos à mesa para sentir a casa habitada. Basta saber que respiram em algum lugar, e a distância se faz pequena.
Muitas coisas parecem voltar ao lugar. Também as ideias, inclusive aquelas que se aproximam do mistério, dos símbolos, do que não cabe inteiro numa explicação. Volto a elas com menos pressa de decifrar. Há perguntas que me acompanham há décadas e que hoje posso deixar abertas, como uma janela de frente para o mar, por onde entra a brisa sem pedir licença. Já não preciso encerrar o universo num entendimento. Posso conviver com ele, como se convive com a imensidão da água: sem domá-la, apenas deixando que molhe os pés.
Nesta noite, sinto que alcancei muita coisa. Existencialmente, talvez mais do que consigo enumerar. Vivi, construí, amei, atravessei dificuldades que, enquanto aconteciam, pareciam maiores do que eu. Algumas deixaram marcas; outras, um espanto discreto por ter conseguido continuar. Olho para trás e vejo um homem que seguiu nadando mesmo quando não via a praia.
Não fiquei rico.
É curioso que esse pensamento ainda apareça para conferir o balanço, como um contador atrasado que chega quando a festa já acabou e as cadeiras estão sobre as mesas. Que sonho esquisito, o de enriquecer. Não pelo desejo de conforto ou de segurança, que compreendo muito bem, mas pela promessa de que uma quantia pudesse enfim atestar: deu certo, a vida valeu. Talvez eu tenha acreditado um pouco nisso. Talvez ainda reste alguma coisa dessa crença, porque ninguém abandona de uma vez tudo o que aprendeu a desejar.
Mas olho ao redor, penso nas pessoas que amo, nas conversas que tivemos, no que pude construir, e essa conta perde importância. Aos poucos, vou deixando de medir a vida com uma régua que nunca serviu para ela. Há coisas que não cabem em número, assim como o mar não cabia no baldinho com que eu, menino, tentava levá-lo para casa.
Tenho a certeza incerta de que pude acolher e amparar muita gente. A expressão pode soar estranha, mas é a mais honesta que encontro. Nem sempre sabemos o que a nossa presença produziu na vida de alguém. Às vezes, uma pessoa retorna anos depois e nos conta. Outras seguem adiante, e ficamos sem notícia, como quem empresta uma palavra ao vento e nunca mais sabe onde ela pousou. Há encontros cujo alcance permanece para sempre desconhecido.
Ainda assim, sei que estive ali. Escutei, procurei compreender, ofereci o que tinha. E nunca consegui tratar isso apenas como parte do trabalho. “Ossos do ofício” me parece expressão pobre demais para o que acontece quando alguém nos confia uma dor. Havia uma pessoa diante de mim. Havia também uma pessoa em mim, sendo tocada por aquele encontro. Ao longo dos anos, muitos rostos passaram pela minha vida; alguns continuam comigo de um modo que já não depende da memória exata de suas histórias. Ficaram como fica o sal na pele depois do banho de mar: invisível, e ainda assim presente.
Amar, amei. E ainda amo.
Gosto de poder escrever isso no presente. O amor não ficou guardado num tempo em que eu era mais jovem, mais disposto, mais pródigo em promessas. Continua aqui, talvez menos ruidoso, atento a outras coisas. À saúde de quem está perto, ao cansaço numa voz conhecida, à alegria da minha irmã, aos caminhos dos filhos, à vida que se anuncia nos netos e ao companheirismo de minha esposa. Há uma felicidade particular em vê-los existir para além de mim, como ondas que vão mais longe do que a mão alcança.
Construí casas simbólicas. Lugares onde procurei oferecer abrigo por meio da palavra, da escuta, dos vínculos, dos livros. Algumas pessoas ficaram por muito tempo; outras apenas passaram, o tempo de secar os pés e seguir viagem. Eu mesmo encontrei morada nessas construções. Hoje percebo que boa parte do que fiz foi tentar tornar o mundo um pouco mais habitável — para os outros e para mim. Talvez toda casa que a gente ergue por dentro seja, no fundo, um modo de não se afogar.
Também perdi gente amada.
A esta altura da vida, os ausentes já ocupam bastante espaço. Aparecem numa lembrança inesperada, numa frase que ninguém mais diz daquele jeito, na vontade de telefonar que precisa ser interrompida porque já não há quem atenda. Conheço a impermanência, penso sobre ela, reconheço a sua marca em tudo o que existe. Mas nunca estou preparado quando ela chega perto demais. O mar me ensinou cedo que nenhuma onda volta, e mesmo assim passo a vida surpreso com cada uma que se desfaz.
O entendimento não impede a saudade. Talvez apenas me ajude a recebê-la sem exigir que vá embora depressa. Há pessoas que continuam participando da nossa vida justamente pela falta que fazem. Em certos domingos, sinto que me sento também com elas, e a cadeira vazia deixa de ser vazia.
É então que escrevo.
Será esta a minha melhor maneira de criar laço? Não sei. A escrita às vezes aproxima; às vezes revela a distância que eu tentava atravessar. Há o que consigo dizer olhando nos olhos e há o que só encontro quando fico sozinho diante da página, como quem caminha na praia deserta e, só então, escuta o que vinha pensando. Escrevendo, descubro sentimentos que estavam em mim sem ainda ter forma.
Talvez alguém leia e reconheça algo seu. Talvez uma frase alcance uma pessoa justamente no instante em que ela precisava de companhia. Essa possibilidade me comove. Escrevo sem saber ao certo aonde as palavras vão chegar — lanço-as como quem joga uma garrafa ao mar, confiando que a correnteza há de encontrar alguma praia. Escrevo porque elas me aproximam do que vivo. E, enquanto puder, continuarei escrevendo.
Ultimamente, fico mais calado. Observo.
Há quem estranhe. Talvez pensem que estou triste ou me afastando. Em alguns momentos, posso estar mesmo. Mas há também um silêncio bom, desses que não pedem para ser preenchidos, que nascem de já não precisar participar de toda disputa, corrigir toda opinião, ocupar qualquer intervalo. Vou descobrindo que posso estar presente sem dizer tanto. O mar também se cala, entre uma onda e outra, e é nesse intervalo que ele parece mais fundo.
É uma das faces da minha envelhescência: este envelhecer que vou percebendo por dentro, enquanto a vida ainda pede coisas de mim. O corpo impõe limites, o tempo ganha outro valor, certas ambições perdem a força. Fico menos interessado em acumular. Isso preocupa algumas pessoas, e eu entendo. Talvez receiem que eu esteja desistindo. Eu mesmo preciso distinguir, de quando em quando, o desapego do desânimo — a maré que escolhe recuar daquela outra que apenas seca. Mas, nesta noite, o que sinto é vontade de viver com menos peso.
E uma vontade de mar.
A praia continua sendo uma paixão que não envelheceu comigo. Ou envelheceu tão bem que se tornou ainda mais necessária. Cresci no mar. Antes de tantas ideias, de tantos nomes para o que eu sentia, havia a água, o sal, a areia morna, o horizonte que nunca cobrava explicação. Meu corpo aprendeu cedo aquela língua e ainda a reconhece, como se reconhece a voz da mãe no meio de uma multidão.
Sinto saudade de Itaparica. Da travessia na barca, a Baía de Todos os Santos aberta como uma promessa, Salvador ficando para trás numa linha branca e azul. Ali o tempo tinha outra pressa — ou não tinha nenhuma. As águas mansas, mornas como quem acolhe, os coqueiros curvados pelo hábito do vento, o cheiro de maresia misturado ao de manga madura caída no chão do quintal. Eu era menino, e a ilha parecia o mundo inteiro. Havia pescadores remendando redes à sombra, o casco das canoas descansando de barriga para cima na areia, e uma luz de fim de tarde que dourava tudo sem pedir nada em troca.
Sinto saudade do Porto da Barra. Daquela enseada mansa, abrigada, com o Farol da Barra vigiando de longe o encontro do mar com a cidade. Da areia cheia de gente e, ainda assim, de uma intimidade estranha, como se todos ali fossem antigos conhecidos. Das baianas de tabuleiro, o azeite de dendê perfumando o ar, o acarajé quente queimando os dedos e valendo a pressa. Do sol que se despedia atrás do mar e arrancava de todos o mesmo gesto — ninguém ensinou, mas todos aprenderam a aplaudir o poente, como se a beleza pedisse ao menos uma reverência. Eu aplaudia junto, sem saber que estava guardando aquilo para sempre.
Sinto saudade de Arembepe. Mais ao norte, onde o mar ficava mais bravo e a paisagem, mais solta. As piscinas naturais entre as pedras, a água doce das lagoas encostando na água salgada, os coqueirais sem fim, as cabanas simples, aquele ar de lugar que o mundo tinha esquecido — e ainda bem. Havia no corpo e no peito uma liberdade que eu não sabia nomear e que só muito depois entendi como juventude. A gente ficava até tarde, descalço, a conversa seguindo o compasso das ondas, e o futuro parecia uma coisa distante, que não valia a pena apressar.
E sinto saudade de Morro de São Paulo. Da chegada de barco à ilha de Tinharé, das malas carregadas ladeira acima porque ali carro não entrava — e isso, em vez de incômodo, soava como privilégio. Das praias sem nome próprio, cada uma com o seu feitio, das noites em que a juventude não tinha hora para terminar. Que tempos mágicos. Sei que a memória ilumina certas cenas e deixa outras na sombra, mas isso não diminui a verdade do que vivi. Há uma luz daqueles lugares que ainda consigo sentir na pele. Há uma liberdade que ficou para sempre associada ao mar, à infância, ao jeito de estar no mundo antes de tanta obrigação.
A baianidade retorna assim, aos poucos. No desejo de demorar um pouco mais numa conversa. Na alegria que não exige grande motivo. No corpo que se lembra da água antes de a cabeça lembrar. Numa saudade que traz calor, mesmo quando dói. Depois de tantos anos, reconheço em mim o menino que cresceu em Salvador, correndo na areia, a pele salgada, os olhos cheios de mar. Ele não explica por inteiro o homem que me tornei, mas ainda lhe oferece algo essencial — talvez a certeza de que a vida, antes de tudo, foi generosa.
Talvez amadurecer permita esses reencontros. Passei boa parte da existência seguindo adiante, construindo, tentando, respondendo ao que precisava ser feito. Agora, sem deixar de caminhar, olho mais vezes para o que ficou comigo. Descubro que certas raízes continuaram vivas mesmo quando eu quase não lhes dava água. Elas sabiam esperar.
É domingo à noite. Meu coração parece ter atravessado mais uma dificuldade. Os meus estão bem. Há perdas que seguem doendo, perguntas sem resposta, coisas que ainda desejo realizar. Há também a sensação serena de ter participado da vida de muita gente e de ter deixado que ela participasse da minha. No fim, foi disso que se fez a riqueza — essa que não se conta, apenas se sente.
Não fiquei rico. Ainda sorrio um pouco ao pensar nesse sonho.
A noite avança, e eu escrevo. Lembro do Porto da Barra, de Itaparica, de Arembepe, de Morro de São Paulo. Por alguns instantes, quase sinto o sal na pele e o barulho da arrebentação lá dentro, onde ele nunca foi embora. O mar está longe daqui, mas encontro o seu movimento nesta pausa, neste alívio, nesta vontade de continuar.
Vou ficando mais calado. Mas ainda tenho muito a dizer — e, enquanto houver maré, eu escrevo.
Um abraço,
Paulo Cesar
Psicólogo Clínico, de linha humanista existencial com acentuada orientação junguiana, budista e pós-graduações em Sexualidade Humana, Autismo e Psicologia Clínica.
Palestrante sobre temas ligados ao comportamento humano no ambiente social e empresarial
Algumas reflexões se ampliam quando encontram outras vozes. Se este texto despertou algo em você, compartilhe sua reflexão nos comentários. Talvez sua experiência possa ajudar outro leitor a compreender melhor a própria caminhada.
É realmente encantador como quem tem o dom da escrita consegue nos transportar a lugares, sensações não conhecidas mas que nos remetem a repensar experiências passadas!!! O texto me passa um sentimento de emoções bem vividas boas ou não tão boas , e de como o que é nativo fica interiorizado na pessoa . E que o resgate nos energiza e que nos faz refletir o que realmente vale a pena.
Acredito que estamos aqui para nos aprimorarmos enquanto pessoa e de poder aprender e ensinar com quem cruzarmos nesta trajetória.
E por isso identifiquei-me com alguns pontos citados no texto.
Agradeço a leitura proporcionada e parabenizo pelo texto!!!
Continue escrevendo, vc faz isso muito bem e com certeza auxiliará muitas pessoas!! Bjo com todo carinho
Parabéns pelo primoroso texto, como sempre nos remete à reflexão.
estruturar esta caminhada pela reflexão de domingo à noite – nesta proposta – com os dados da trajetória uma vida com ressignificaçoes e renascimentos neste vetor de percepções por vários núcleos vivenciados … é muito forte!
Pergunto: o que devemos escrever enquanto houver MARÉ para o nosso coração e para corações ao nosso redor … o SOL pode ser uma chave todas as manhãs
Parabéns Paulo! Texto emocionante que nos faz refletir sobre nossas próprias vidas num dia tão especial como esse.
Meu irmão, um poeta de coração. Reflexões maravilhosas das nossas vidas. Amo muito vc e sou orgulhosa de ter vc como meu irmão.
Que viagem no tempo maravilhosa!
Realmente é necessário ficar um pouco calado para deixar aflorar o pensamento, as ideias, as lembranças, e registrá-las, principalmente quando se tem o dom da escrita.
Saiba que sua garrafa, depois de percorrer meio mundo, trouxe-me recordações de um gordinho – Jacaré tá aí, positivo! – irrequieto, inteligente, que desenvolveu e soube utilizar seus dons para ajudar muitos a encontrar o caminho das pedras e sobreviver a turbulentas águas.
Parabéns Paulinho, que Deus continue iluminando e guiando os seus passos.
Com certeza, a barra, arembepe e o morro de S.Paulo, com suas marés, ainda lhe trarão muitas energias.
Forte abraço, Fernandinho.