A filosofia como a alma que faz do símbolo uma pergunta, do rito um pensamento vivo e da Loja uma oficina do ser

Conheço homens que frequentaram a Loja durante décadas. Aprenderam cada sinal, cada palavra, cada passo, e executam a ritualística com uma precisão que impressiona os mais jovens. E, no entanto, permanecem — digo isso sem qualquer desprezo, com a ternura de quem também já esteve ali — os mesmos de sempre: igualmente impacientes diante de quem os contraria, igualmente ávidos pelo elogio, igualmente incapazes de reconhecer um erro sem transformá-lo em ferida. Há uma espécie de tragédia silenciosa nisso. A forma foi cumprida; a alma não foi tocada. O rito aconteceu; o homem não aconteceu.
É dessa constatação que nasce este artigo. Porque a pergunta que de fato importa a quem cruza as colunas do Templo não é “quantos anos tenho de Ordem?”, mas “o que, em mim, está sendo transformado por tudo isso?”. E essa pergunta, por mais que se vista de símbolos maçônicos, é, em sua raiz, uma pergunta filosófica.
O que acontece quando a filosofia falta
Há dois modos de esvaziar a Maçonaria, e ambos são sedutores porque se parecem com virtudes. O primeiro é reduzi-la a regras. O apego exclusivo à observância, à exatidão protocolar, ao “sempre foi assim”, produz um tipo de maçom que confunde regularidade com maturidade. Ele faz tudo certo e não se move por dentro. A norma, que deveria ser andaime a serviço de uma construção interior, vira o próprio edifício — e um edifício oco. O segundo modo é reduzi-la a convívio. A amizade, a mesa farta, o prazer de pertencer são bens reais, e seria desumano menosprezá-los. Mas quando o aspecto social se torna o centro, o Templo deixa de ser oficina e vira salão. O maçom passa a colecionar afinidades, contatos, pequenos prestígios, e a jornada iniciática, que é interior, dissolve-se numa sociabilidade agradável e inofensiva.
Em ambos os casos falta a mesma coisa: a filosofia. Não a filosofia dos manuais, decorada para impressionar, mas aquela disposição viva de examinar a própria vida, interrogar as próprias certezas e procurar coerência entre o que se professa e o que se faz. Gosto de pensá-la como uma artesania do sentido: uma forma de honrar o mundo sem anestesiá-lo e de interrogar a vida sem desespero. Sem ela, os símbolos continuam ali, mas emudecem. Com ela, cada símbolo volta a ser o que sempre foi: uma pergunta dirigida a quem o contempla.
O símbolo é uma pergunta, não uma resposta
Está aqui, a meu ver, o mal-entendido mais comum entre os que começam. O iniciante e neófito quer que lhe decifrem o símbolo. Quer o significado do esquadro, do compasso, da pedra, como quem pede a tradução de uma palavra estrangeira — para guardá-la, fechá-la, encerrar o assunto. Mas o símbolo que se deixa traduzir por completo morre no instante da tradução. Vira sinal, legenda, verbete. Deixa de respirar.
Há uma fórmula que persegui ao longo de um capítulo inteiro de Caminhos Filosóficos para a Luz e que resume o que tento dizer: o símbolo não explica — revela. Explicar é fechar; revelar é abrir uma fresta e convidar quem olha a entrar. Por isso o rito não entrega sentidos prontos: ele os encena, deixa-os suspensos no ar do Templo e espera. E, ao esperar, faz de cada irmão não um espectador, mas um coautor do sentido — alguém que, a cada nova leitura, acrescenta uma camada ao texto mudo que os antigos nos legaram.
O símbolo vivo é justamente aquele que não se esgota. Ele devolve a pergunta, e a devolve diferente a cada etapa da vida. A pedra bruta que um homem contempla aos vinte anos não é a mesma que ele reencontra aos sessenta, depois de ter perdido, amado, fracassado e recomeçado. Voltamos muitas vezes ao mesmo símbolo, e a cada retorno estamos um pouco mais fundo — porque certas verdades, como escrevi, não se alcançam por linhas retas, mas por espirais. Manter o símbolo aberto, resistir à pressa de fechá-lo numa definição, é uma das disciplinas mais difíceis e mais fecundas do caminho. É aqui que a filosofia presta seu primeiro serviço: ensina a conviver com o que não se conclui, a habitar a pergunta sem o desespero da resposta imediata.
A pedra bruta: não apenas corrigir, mas revelar
Costuma-se dizer que lapidar a pedra bruta é remover defeitos, aparar arestas, corrigir vícios. É verdade, mas é apenas metade da verdade, e a metade mais fácil. Porque existe um modo de “trabalhar a si mesmo” que é, no fundo, uma guerra contra si mesmo — um esforço ansioso de moldar-se segundo uma imagem idealizada, de produzir uma versão apresentável, aprovada, elogiável. Esse trabalho não liberta: aperta.
Aprendi, na clínica e na vida, que a lapidação mais verdadeira não é só subtração. É também revelação. O escultor diante do mármore não impõe à pedra uma forma estranha; ele retira o excesso para que aquilo que já estava ali possa, enfim, aparecer. Há, em cada ser humano, algo autêntico que foi soterrado sob as máscaras que precisou vestir para ser aceito — e boa parte do trabalho interior consiste menos em “consertar-se” do que em deixar emergir aquilo que se é, quando se para de fingir. A pedra bruta não guarda apenas defeitos a eliminar. Guarda também um rosto a nascer.
Entendido assim, o autoconhecimento maçônico não tem nada de introspecção narcisista. Não é a contemplação do próprio umbigo, mas a coragem de olhar para as sombras que evitamos: a vaidade que se disfarça de zelo, a rigidez que se apresenta como firmeza, a necessidade de ter razão que se traveste de amor à verdade. E perguntas simples e desconfortáveis fazem esse trabalho melhor do que qualquer tratado: por que esta discordância me ofende tanto? O que procuro quando faço questão da última palavra? Minha dedicação permanece quando não há cargo, elogio ou plateia? São essas perguntas o verdadeiro cinzel do iniciado: a cada golpe, lascas de dogmatismo caem, e o contorno do rosto que buscamos vai ficando mais nítido.
A erudição também pode virar máscara
Preciso dizer, com franqueza, algo que o próprio entusiasmo pela filosofia costuma esconder. O estudo filosófico, tão necessário, também pode se tornar uma nova forma de vaidade — talvez a mais sutil de todas, porque se veste de profundidade (confesso, por estar entre leitores irmãos, a minha rigorosa e constante autocrítica para não deixar-me ludibriar por esta tentação). Vi homens trocarem a ostentação do cargo pela ostentação do saber, citando autores como quem exibe medalhas, usando o símbolo decifrado para diminuir o irmão que ainda não chegou lá. Isso não é filosofia; é o ego encontrando um esconderijo mais elegante.
O critério para distinguir uma coisa da outra é simples e implacável: a verdadeira filosofia torna o homem mais humilde, não mais imponente. Se o estudo me faz sentir superior, errei o caminho em algum ponto. Porque o saber que vale, como nos lembra toda a tradição iniciática, não é o que nos coloca acima dos outros, mas o que nos torna mais humanos. Por isso resisto à ideia de que a filosofia seja apenas uma “ferramenta” de otimização do eu, como se a pessoa fosse matéria-prima a ser melhorada segundo metas. Ela é menos um instrumento e mais uma companheira — alguém que caminha ao lado, faz a pergunta certa na hora certa e, de vez em quando, tem a delicadeza de calar. Foi esse, aliás, o voto com que encerrei meu livro: que a filosofia não fosse cátedra, mas companhia de viagem.
A ética que se prova do lado de fora
Se há um lugar onde a iniciação de fato se verifica, não é o Templo — é a rua. Ou, para ser mais exato: o Templo nunca foi apenas o edifício. Ele é também o corpo, o tempo e o mundo. É a maneira como trato minha família quando ninguém me observa, como falo do funcionário que depende de mim, como respondo a quem pensa diferente e não me oferece nenhuma vantagem. A fraternidade entre irmãos é bela, mas ainda é relativamente fácil: há afinidade, há pacto, há reciprocidade. A prova decisiva da fraternidade é o estranho — aquele que não pertence ao meu círculo, não compartilha das minhas ideias e nada tem a me dar. É diante dele que se mede o quanto o aprendizado desceu do símbolo para a carne.
A lapidação do caráter acontece nessas pequenas decisões concretas, quase sempre invisíveis: reparar uma ofensa, admitir um limite, cumprir a palavra mesmo quando sairia mais barato não cumpri-la. Nenhuma dessas coisas rende aplauso. Todas, porém, constroem um homem.
O silêncio, a coragem e aquilo que é maior do que nós
Há duas aprendizagens que a Maçonaria oferece e que a filosofia aprofunda, e elas parecem opostas, embora sejam irmãs. A primeira é o silêncio — essa capacidade de suspender a resposta pronta, de escutar o outro sem já estar formulando a réplica, de tolerar alguns instantes de incerteza sem precisar preenchê-los. No silêncio descobrimos quanto de nossa fala nasce apenas da necessidade de nos afirmarmos; e descobrimos também uma sabedoria que não se deixa formular, uma potência que mora justamente no não saber. A segunda aprendizagem é a coragem — porque o mesmo homem que aprende a calar precisa aprender a falar quando a justiça, a dignidade ou o cuidado exigem que alguém se posicione. Silêncio sem coragem é omissão; coragem sem silêncio é estrépito. A sabedoria mora no ponto exato em que os dois se encontram.
E há, por fim, a dimensão que nenhuma palavra abarca inteiramente. A espiritualidade maçônica não pede que se acredite nisto ou naquilo; pede que o indivíduo se eleve. É simbólica, não dogmática. O Grande Arquiteto do Universo não é uma doutrina a ser aceita, mas um símbolo da transcendência, uma ponte entre o humano e o eterno que cada consciência percorre à sua maneira. Essa abertura ao sagrado torna-se especialmente preciosa quando a vida nos confronta com aquilo que não controlamos — o sofrimento, o fracasso, o envelhecimento, a finitude. Cícero dizia que filosofar é aprender a morrer: não por morbidez, mas porque quem encara de frente a própria finitude aprende, enfim, a dar peso ao que de fato importa. É aí que a filosofia mostra seu rosto mais maduro: não a que promete respostas, mas a que nos ensina a atravessar o que não tem resposta sem perder a ternura nem a lucidez.
Um convite
Foi para desenvolver essas ideias com o vagar que elas merecem que escrevi Caminhos Filosóficos para a Luz: a filosofia viva nos fundamentos da Arte Real, hoje disponível na Biblioteca da Psique – www.bibliotecadapsique.com). Não é um tratado acadêmico nem um manual de rituais. É um convite a caminhar — capítulo a capítulo, de Sócrates a Byung-Chul Han, do silêncio do Templo à pressa do mundo — pela espiral em que filosofia e Maçonaria se iluminam uma à outra.
Mas o essencial pode ser dito aqui, em poucas linhas, e cabe a cada um de nós verificá-lo na própria vida. A Maçonaria não é um clube: é uma escola de transformação. A Loja não é um salão: é um laboratório de consciência. O rito não é cerimônia: é pensamento encarnado. E o maçom não é um membro de uma instituição: é um trabalhador do próprio ser. Reduzida a regras e a convívio, a Ordem adormece em ritos vazios. Despertada pela filosofia, ela volta a ser o que sempre foi destinada a ser: um caminho de autoconhecimento em que cada símbolo é uma pergunta, cada gesto é uma oportunidade de acordar, e a busca da Luz deixa de ser uma fórmula para se tornar, enfim, um modo de viver. Porque a Luz que importa não é a que se contempla no Oriente do Templo. É a que, encerrada a sessão, a gente carrega para casa — e acende, em silêncio, na maneira de tratar o mundo.
Ir.’. Paulo Cesar T. Ribeiro
Celular / Whatsapp: 11 98199-5612
Psicólogo clínico, palestrante, autor e organizador da Biblioteca da Psique – www.bibliotecadapsique.com.
Mestre Maçom Gr\ 33, Ex Venerável Mestre e Ex Delegado Distrital.
Dedica-se há décadas ao estudo das interfaces entre a Psicologia, a Filosofia e o Simbolismo Maçônico. Como parte de seu trabalho de difusão dessas ideias, oferece palestras gratuitas em Lojas Maçônicas, levando aos IIr\ reflexões que aproximam a vivência iniciática do autoconhecimento psicológico.
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Abordagem excelente. Para os que são atentos e se incomodam com a mesmice cinza das sessões perfeitas na forma, é uma provocação à transformação.
Tece um tapete cheio de figuras verdadeiras e necessárias, abre porta e mostra um caminho de muitos obstáculos a se vencer, uma vez que, é temerária admissão de indivíduos, que nao desejam a buscar autoconhecimento, pois o atrativo é pertencer a uma instituição, que goza de notório prestígio na sociedade e o convívio social funciona, como ingresso a privilégios, na verdade a filosofias, é uma arte que nem todos os iniciados desenvolvem, pois é uma iniciativa que parte de cada indivíduo, apesar de que, sem a Filosofia, a maçonaria perde a essência, tornado-se apenas uma associação de homens de bons costumes.