Sobre a pornografia, a compulsão sexual e o encontro que, no fundo, o homem procura
Há um homem que eu poderia lhe descrever, embora ele seja, na verdade, muitos homens. Tem uma vida em ordem — trabalho, família, uma reputação que preza. E tem também, guardado num canto que ninguém vê, um hábito que já não é bem um hábito, porque escapou das suas mãos faz algum tempo. À noite, quando a casa dorme, ele acende a tela. Depois, há sempre um instante em que olha para o que fez e sente algo próximo do vazio, uma espécie de gosto amargo que não sabe nomear. Promete a si mesmo que aquela foi a última vez. E, no entanto, sabe, num lugar mais fundo, que não foi.

Quero começar por esse homem, e não por definições, porque é dele que se trata. Não de um pervertido, não de um doente moral, não de alguém que precisa de sermão. Trata-se de uma pessoa que, em algum momento da vida, encontrou na sexualidade uma forma de aplacar uma dor que não tinha outro nome, e que aos poucos foi ficando presa nessa forma. É disso que falaremos aqui, com franqueza, mas sem julgamento, porque o julgamento nunca curou ninguém.
Minha intenção não é demonizar o desejo. O desejo é uma das forças mais vivas que habitam o ser humano; é ele que nos lança em direção ao outro, à criação, ao encontro. Havia uma senhora, avó de alguém, que resumia a sabedoria da vida numa frase simples: nem tanto, nem tão pouco. Há algo de profundamente verdadeiro nisso, e algo que as tradições contemplativas do Oriente também sempre souberam — que o problema raramente está no prazer em si, e quase sempre na perda da medida, no ponto em que aquilo que deveria nos servir passa a nos governar. A pornografia, vista de longe, pode parecer apenas um entretenimento adulto sem grandes consequências. E, para muita gente, talvez seja mesmo só isso. O que me interessa aqui é outra coisa: o instante em que ela deixa de ser escolha e vira necessidade, o instante em que o homem já não vai até ela, mas é levado por ela.
Porque a compulsão sexual não se mede pela conta dos atos, como se houvesse um número certo abaixo do qual se está são e acima do qual se está doente. Ela se reconhece por dentro, pela qualidade da experiência. Quem vive nela conhece bem o roteiro, ainda que raramente o tenha posto em palavras. Primeiro vem a preocupação, um pensamento que começa pequeno e vai ocupando espaço, até que a mente inteira parece organizada em torno daquilo. Depois vem o ritual, os gestos conhecidos que preparam o terreno e que já são, eles mesmos, parte da excitação. Vem então o ato, e com ele um alívio que dura pouco, quase nada. E vem, por fim, o que talvez seja a parte mais dolorosa: o desânimo, a sensação de impotência, o vazio de novo — só que agora acompanhado de vergonha. É aqui que a armadilha se fecha, porque a vergonha não encerra o ciclo. Ela o realimenta. O homem se sente mal consigo mesmo, e é justamente para não sentir esse mal-estar que volta a procurar o alívio que o produziu. A vergonha provoca a compulsão, e a compulsão provoca a vergonha, num círculo que gira sobre si mesmo e vai apertando.
Sob esse ciclo, quase sempre, há uma dor mais antiga. Muitos dos homens que atendi ao longo dos anos descreveram, quando enfim conseguiram falar, uma espécie de buraco interno, um vazio que estava ali muito antes da pornografia. O sexo entrou na vida deles não como celebração, mas como anestesia — um jeito de não sentir a angústia, a solidão, a estima em baixa, aquele sentimento persistente de não valer o bastante. Não é raro que essas feridas venham de longe: de uma infância em que o afeto faltou ou foi imprevisível, de um ambiente que não ofereceu o colo seguro de que toda criança precisa, e, em alguns casos, de experiências de abuso que ensinaram cedo demais que o corpo podia ser usado e que a intimidade era um território perigoso. Quem aprendeu, muito pequeno, que não podia confiar no encontro com o outro, encontra na fantasia um refúgio compreensível. Ali ninguém o machuca, ninguém o rejeita, ninguém lhe pede nada em troca.
E é exatamente essa a promessa da tela, e também a sua cilada. A pornografia oferece um parceiro que nunca diz não, que nunca tem um dia ruim, que nunca envelhece, nunca cobra, nunca decepciona e pode ser dispensado no segundo em que deixa de ser útil. É um encontro sem o risco do encontro. E aqui toco no que me parece o coração da questão. Um encontro verdadeiro exige que exista, do outro lado, uma pessoa real — alguém que tem vontade própria, que às vezes me frustra, que não cabe por inteiro dentro dos meus desejos e que, justamente por isso, é real. A pornografia dispensa esse outro. Devolve ao homem uma imagem perfeitamente moldada à sua fantasia, sobre a qual ele tem controle absoluto. O problema é que a alma humana não se sacia com aquilo que controla por inteiro. Fomos feitos para o encontro com o que nos ultrapassa, não com o nosso próprio reflexo.
Com o tempo — e isto a experiência clínica mostra com clareza —, o hábito vai exigindo mais. A mesma imagem já não produz o mesmo efeito; é preciso mais intensidade, mais novidade, mais transgressão, para alcançar aquilo que antes vinha fácil. Não é fraqueza de caráter; é o modo como funcionamos. O que se repete se gasta, e o que se gasta pede reposição. Mas há um preço silencioso nesse processo, e ele não é o tempo perdido diante da tela. O preço é a lenta erosão da capacidade de encontro real. Aos poucos, a mulher de carne e osso — com o corpo que ela de fato tem, com o cansaço, com o humor, com o desejo que é dela e nem sempre coincide com o dele — vai ficando mais difícil de alcançar do que as imagens sempre disponíveis e sempre perfeitas. E o homem, sem perceber o momento exato em que isso aconteceu, se descobre mais íntimo de fantasmas do que da própria companheira.
Chego assim ao ponto que mais me toca, que é o que essa história faz com a vida a dois. Porque a compulsão parece, à primeira vista, um assunto solitário, algo que o homem vive sozinho no seu canto. Mas ela nunca é só dele. Quem convive com ele sente, muito antes de saber. A companheira percebe uma distância que não consegue explicar, uma presença que está e não está, um afeto endereçado a outro lugar. Muitas mulheres, nessa situação, começam duvidando de si mesmas: será que sou eu, será que não sou suficiente, será que já não sou desejável? Há uma crueldade particular nessa dúvida, porque ela não tem como competir — e não deveria competir — com imagens fabricadas de propósito para serem impossíveis. Nenhuma pessoa real vence uma fantasia, pela simples razão de que a pessoa real tem a ousadia de existir, de ter limites, de ter uma vida própria.
Quando o segredo enfim aparece, e ele quase sempre aparece, o que fere não é apenas o conteúdo, mas a descoberta de que houve uma vida paralela, um cômodo na alma do companheiro ao qual ela não tinha acesso. É a quebra de uma confiança, a sensação de ter dividido a cama com alguém que mantinha um quarto trancado. Digo isso sem dramatização, mas também sem suavizar, porque a dor de quem está desse lado é real e merece ser nomeada. E, no entanto — e faço questão de afirmar isto com a mesma firmeza —, esse não costuma ser o fim da história. O homem que se perdeu na compulsão não é um monstro; é alguém que organizou o próprio sofrimento em torno de um comportamento e que, na maioria das vezes, também sofre com ele e gostaria de sair. A intimidade que se perdeu pode ser reconstruída. Não por mágica, não por promessa, mas por um trabalho honesto que, quando é possível, se faz melhor a dois.
Aqui preciso ser sincero sobre uma coisa. A tentação, diante de um problema assim, é procurar soluções que ataquem o comportamento pela superfície: bloquear sites, instalar filtros, entregar senhas a alguém de confiança, prometer, redobrar a força de vontade. Nada disso é inútil — essas medidas podem criar um respiro, uma pausa no automatismo. Mas seria enganoso apresentá-las como cura, porque não tocam naquilo que sustenta a compulsão. A força de vontade, sozinha, quase sempre fracassa, e o homem que já tentou parar dezenas de vezes sabe disso melhor do que ninguém. Fracassa não por ele ser fraco, mas porque está tentando calar um sintoma sem escutar o que ele diz.
E o sintoma diz alguma coisa. Este é, talvez, o ponto de vista que mais defendo depois de tantos anos ouvindo histórias humanas: o comportamento que nos escraviza é quase sempre um recado da alma, uma tentativa desajeitada de resolver uma dor que não encontrou outro caminho. A compulsão sexual não é o problema central; é a língua em que um problema mais fundo tenta se dizer. Por isso a psicoterapia importa tanto nesses casos. Ela não começa combatendo o comportamento. Começa escutando por baixo dele.
Lembro-me de um homem — e falo dele em termos gerais, preservando a pessoa — de meia-idade, casado, bem-sucedido no trabalho, que chegou apavorado com a própria conduta, já a ameaçar a família e o emprego. Ao longo de um trabalho paciente, foi aparecendo, por trás da busca sexual incessante, um menino que sofrera abuso muito cedo e que nunca fora acreditado quando tentou contar. Foram vindo à tona a vergonha guardada por décadas, a raiva que não tivera para onde ir, as figuras rígidas e repressoras que ele carregava por dentro e contra as quais, sem saber, se rebelava daquele jeito. À medida que essas coisas puderam ser ditas, olhadas e por fim sentidas num espaço onde não havia condenação, o impulso foi perdendo a urgência. Não porque ele passou a se controlar com mais rigor, mas porque a dor que o comportamento tentava anestesiar começou, enfim, a ser cuidada. E, o que talvez seja o mais importante, ele pôde reencontrar a esposa — a mulher real, e não a concorrente impossível das fantasias — e recuperar com ela uma intimidade que andava perdida.
É isto que a psicoterapia oferece e que nenhum filtro de internet oferece: um encontro. Um lugar onde o homem pode, quem sabe pela primeira vez, ser inteiramente visto sem ser rejeitado. E há algo de profundamente reparador nisso, porque foi justamente a falta desse tipo de encontro que, tantas vezes, esteve na origem de tudo. O que se cura na relação terapêutica é a própria capacidade de se relacionar. Em alguns casos, um acompanhamento médico ajuda a atravessar as fases mais agudas, e os grupos de apoio, onde outros homens partilham a mesma luta sem vergonha e sem máscara, podem ser um alívio e uma companhia preciosa. Mas o centro é sempre esse: sair do esconderijo, deixar-se acompanhar, aprender de novo — ou aprender pela primeira vez — que é possível ser recebido.
Volto, para terminar, à sabedoria simples da avó: nem tanto, nem tão pouco. O caminho não é matar o desejo nem tratá-lo como inimigo. O desejo é vida, e uma vida sem desejo é uma vida apagada. O caminho é outro, mais delicado e mais difícil: habitar o desejo de um modo humano, devolvê-lo ao seu lugar de ponte entre duas pessoas, e não de fuga de si mesmo. O homem preso à tela não precisa, no fundo, de mais imagens. Precisa de algo que nenhuma imagem jamais dará: precisa ser encontrado, e precisa reaprender a encontrar. E esse reencontro, quando acontece — consigo, com quem ama, com a própria vida —, é sempre mais real, mais quente e mais duradouro do que qualquer coisa que a tela um dia prometeu.
Um abraço,
Psicólogo Paulo Cesar T. Ribeiro
Psicoterapeuta de adolescentes, adultos, casais e gestantes – Presencial e Online.
Orientador Parental
Psicólogo clínico de linha humanista existencial e de orientação das Psicologias Analítica (Carl Jung), Relacional e Budista.
Escritor E Palesstrante.
Contatos: www.psipaulocesar.psc.br
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